Tecnologia de Apple e Google que pretende alertar sobre o contágio do novo coronavírus: o que se sabe até agora


Para ajudar a combater a pandemia de coronavírusApple e Google anunciaram na última sexta (10) a criação conjunta de uma tecnologia para alertar contatos de pessoas infectadas por coronavírus.
O sistema único das rivais deve permitir que smartphones com sistema Android, do Google, e iOS, usado nos iPhones, consigam trocar informações via Bluetooth e alertar sobre o risco de contágio, de maneira anônima.
Veja abaixo como o que se sabe até agora sobre o sistema. Ainda existem questões não explicadas. O G1 procurou Apple e Google na última segunda (13), para mais esclarecimentos, mas as empresas não responderam até a publicação da reportagem.

Apple e Google prometem tecnologia conjunta para combater a pandemia de coronavírus — Foto: Aparecido Gonçalves/Rafael Miotto/G1

Quando começa a funcionar e onde?

Google e Apple anunciaram que o sistema estará disponível a partir de maio.
Nesta primeira fase, ele deverá ser utilizado dentro de aplicativos que podem ser criados por autoridades governamentais como uma ferramenta para combater a pandemia.
A ideia é que o recurso funcione em todo o mundo, tanto em smartphones com sistema Android (do Google) quanto iOS (da Apple).
Nos próximos meses, a ideia das empresas é expandir a plataforma para que ela se integre diretamente aos sistemas operacionais, dispensando o uso de um aplicativo. Assim, poderiam alcançar um número maior de usuários. Mesmo assim, segundo elas, a pessoa só estará conectada ao dispositivo se quiser.

Como o sistema vai saber quem testou positivo para coronavírus?

O que se sabe até agora é que os alertas serão enviados somente com autorização do usuário infectado. Ele mesmo terá que avisar no sistema o fato de ter contraído o coronavírus.
A Apple e o Google não informaram se haverá critérios para que o usuário confirme a veracidade da informação. Isso provavelmente ficará a cargo de políticas dos países que quiserem desenvolver os aplicativos onde o sistema vai rodar.

O que fazer com o alerta?

Google e Apple também não deixaram claro como a pessoa deve proceder caso receba o alerta de contato com algum infectado por coronavírus.
Provavelmente, caberá a cada governo ou entidade que empregar essa tecnologia criar estruturar políticas de resposta e orientação para que as pessoas tomem a atitude adequada.
Além disso, seria difícil que todo o mundo adotasse um mesmo protocolo, já que diferentes localidades passam por problemas que não são iguais aos de outras.
“A tecnologia será ofertada para o mundo todo, mas cada região tem uma estrutura própria – inclusive na disponibilidade de testes (para o coronavírus)”, afirma o colunista de segurança digital do G1, Altieres Rohr.

Como serão guardados os códigos trocados pelos celulares? Como fica a privacidade?

Quando o usuário baixar algum aplicativo que tenha esse sistema de alertas da Apple e do Google, o smartphone dele passará a gerar uma chave de segurança que servirá como base na comunicação com os outros aparelhos.
Esses códigos serão recebidos por outros celulares dos quais o aparelho dele chegar perto e que também tenham um app com o mesmo sistema de alertas. E vice-versa.
As chaves recebidas ficarão guardadas nos aparelhos por 14 dias, que é o período de quarentena para pacientes assintomáticos ou com sintomas leves do coronavírus.
O uso das chaves temporárias evita o acesso à localização e à identidade dos donos de smartphones, dizem Google e Apple. Cada celular com o aplicativo vai baixar as chaves geradas; elas não ficarão armazenadas em um servidor externo, por exemplo.
O colunista do G1, Altieres Rohr, lembra que é fundamental que esses códigos sejam exclusivos de cada aparelho, para não haver risco de duplicidade.
“Ao longo do dia, a chave diária será usada para gerar outras chaves temporárias – até 144 em um único dia (uma chave para cada intervalo de 10 minutos). Essas chaves temporárias serão transmitidas por Bluetooth, enquanto a chave diária permanece secreta”, explica Rohr.
Se um usuário souber que tem o coronavírus, ele poderá autorizar o sistema a baixar sua base de dados (chaves) em celulares que tenham esse tipo de aplicativo.
“Se o aplicativo encontrar uma dessas chaves entre as que foram recebidas, será exibido um alerta indicando que você foi exposto ao vírus”, complementa Rohr.
O app vai alertar somente usuários que tiveram contato com a pessoa infectada nos últimos 14 dias, e sem revelar a identidade dela.

Todo celular com Android ou iOS vai ter o sistema obrigatoriamente? O usuário poderá optar por não usá-lo?

As empresas dizem que, para que a tecnologia funcione nos aparelhos, é preciso o consenso do usuário.
Num primeiro momento, ele terá de baixar um aplicativo que possua o recurso para poder ativá-lo. Futuramente, quando a plataforma fizer parte dos sistemas operacionais, Apple e Google também dizem que as pessoas só participarão se optarem por isso.

O sistema vai funcionar em todos os telefones Android e iPhones? Até nos mais antigos?

De acordo com as gigantes da tecnologia, o sistema deverá funcionar tanto em celulares com sistema Android (Google) quanto iOS (Apple).
No entanto, ainda não foi esclarecido pelas empresas se realmente todos os smartphones com essas bases operacionais poderão receber a plataforma (leia mais sobre os desafios do sistema).
Isso porque existem aparelhos mais antigos circulando que podem não fazer as atualizações mais recentes. O problema maior é em relação ao Android, sistema que corresponde ao maior número de smartphones em uso no mundo e é aplicado em aparelhos de diversos fabricantes, dos quais dependem as atualizações.
No caso do iPhone, como a Apple é a fabricante e a criadora do sistema operacional, existe um controle maior da empresa.

Por que os celulares vão se comunicar por Bluetooth? É mais seguro?

Diferente do monitoramento que é feito com dados de operadoras de telefonia móvel (leia mais ao fim da reportagem), que usam antenas, o sistema da Apple e do Google vai recorrer à conexão Bluetooth.
A tecnologia já está sendo usada em Singapura, em um aplicativo do governo chamado TraceTogether, como medida de combate à pandemia.
O Bluetooth é aquele sistema utilizado para fazer a conexão sem fio do celular com aparelhos de som, por exemplo. Essa conexão é conhecida por não gastar muita energia do aparelho.
Além disso, ela atua por meio de ondas curtas e de baixo alcance, ou seja, só funciona se as pessoas de fato estiverem perto uma das outras. É uma precisão é desejável quando se quer rastrear quem esteve em contato com alguém que descobriu posteriormente que tem o vírus.
O colunista do G1 Altieres Rohr explica que o Bluetooth permite reconhecer que dois aparelhos estiveram perto sem depender de um rastreamento completo de sua localização. É mais preciso do que as antenas, por exemplo.
“O sistema é altamente confiável para determinar aproximações ainda maiores, de menos de 2 metros, por exemplo – quando o risco de contaminação é mais elevado”, diz o especialista em segurança digital.
Outra vantagem desse tipo de conexão é justamente o fato de a informação – no caso, um código (chave) emitido do celular do usuário para outro que tenha esse sistema de alertas – não precisa “percorrer” grandes distâncias.
“Como o Bluetooth sinaliza apenas dispositivos a uma distância de menos de 10 metros, é relativamente seguro transmitir a chave temporária por ele”, explica Rohr.

O Bluetooth vai ter que estar ativado o tempo todo?

Esta é uma das questões que ainda não foram esclarecidas pelas empresas. Pode existir a possibilidade de ele funcionar sozinho, em segundo plano.

Quais os principais desafios para que esse sistema funcione?

Podem ser um entrave:
  • limitações técnicas no Android, que esbarram na necessidade de colaboração de diversos fabricantes dos aparelhos que possuem esse sistema;
  • alcance e confiabilidade dos alertas, já que a ferramenta depende também da colaboração dos usuários e cabe a eles autorizar os avisos em caso de contaminação;
  • a convivência dessas chaves com outros sistemas de rastreamento dos smartphones (GPS, etc), porque não está claro se a tecnologia é capaz de impedir que outros aplicativos presentes no aparelho recolham essas informações e as associem com outros dados;
  • o volume de códigos (chaves) a ser baixado por cada aparelho, já que, para se preservar a privacidade, é possível que não sejam feitos “filtros” por região, por exemplo, na hora do download.

Essa tecnologia também vai rastrear a movimentação das pessoas?

Não. O uso de chaves temporárias trocadas por conexão Bluetooth é diferente dos dados obtidos junto a operadoras de telefonia móvel, que estão prestando esse serviço para alguns estados, a fim de identificar a adesão ao isolamento social. Esta não é a finalidade da ferramenta conjunta do Google e da Apple.
“Da maneira que foi projetada, a tecnologia do Google e da Apple é útil apenas para os usuários, e não para a realização de políticas públicas. Ela não é capaz de monitorar movimentações em massa ou o respeito ao isolamento social”, explica Altieres Rohr.
No entanto, ainda não se sabe como os criadores dos futuros aplicativos que terão essa ferramenta poderão usar essas informações. “Os aplicativos desenvolvidos por governos e outras entidades podem associar os dados obtidos de várias formas, combinando-os com outros sistemas de monitoramento”, acrescenta o especialista.
Separadamente, tanto Google quanto Apple anunciaram que terão algum tipo de monitoramento de movimentação, de forma independente desse sistema conjunto. O Google já divulgou relatórios sobre isso inclusive no Brasil.

Quais outras formas de monitoramento por celular têm sido utilizadas na pandemia?

Rastreamentos de movimentação populacional já estão sendo feitos durante a pandemia mundial de coronavírus. No Brasil, alguns estados como São Paulo estão utilizando informações das operadoras de celulares para detectar se as pessoas estão saindo do isolamento social.
O uso dessa ferramenta no âmbito federal foi adiado após intervenção do presidente Jair Bolsonaro, que pediu que sejam feitas análises para garantia da eficiência e da proteção da privacidade dos brasileiros.
Ao G1, o Sinditelebrasil, que representa as principais operadoras de telefonia do país, informou que os dados que formam “mapas de calor” e são organizados de forma agregada e anônima. “Em nenhum momento serão coletados dados de celulares nem serão gerados dados individuais. Não se identificam pessoas, mas a quantidade de linhas por antena”, disse o sindicato, em nota.
As operadoras utilizam dados de identificação das torres para esse monitoramento.
Quando o celular está conectado à rede, ele se conecta uma “torre” ou “célula” da rede. A localização da torre é conhecida, então quem tiver acesso a essa informação pode saber onde o celular se encontra, mas a precisão é muito baixa – algumas células podem ter alcance de vários quilômetros.
Para aumentar um pouco mais a precisão, a operadora pode ainda fazer um cálculo de triangulação a partir das três torres de rede mais próximas do usuário, a partir da potência do sinal que cada torre recebe do aparelho.
Quando o sinal está mais forte, o aparelho está mais perto; se o sinal é mais fraco, o celular está mais longe. Estimando a distância do celular de cada uma das três torres próximas, a operadora consegue estabelecer onde o aparelho está.
Além das operadoras, a empresa de tecnologia In Loco também coleta dados de aplicativos para mostrar como está o isolamento no Brasil.
G1

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